Nutrição

Alimentação úmida para cães e gatos. Como posso usá-la com meus pacientes?

Para nos ajudar a responder essas dúvidas, convidamos duas pesquisadoras da Universidade Federal do Paraná, Ananda Portella Félix (professora) e Taís Silvino Bastos (doutoranda), especialistas em nutrição de cães e gatos.

Os médicos-veterinários estão cada vez mais aderindo à prescrição de alimentos úmidos para cães e gatos, os chamados sachês. Mas não é exagero dizer que ainda temos muitas dúvidas quanto à sua composição e seus benefícios. Como as citadas acima.

Afinal, o que é um alimento úmido?

Os alimentos úmidos são aqueles que apresentam conteúdo de umidade mínima de 60% em sua composição, enquanto os secos apresentam no máximo 12% [1]. Diferente dos alimentos secos, que são produzidos pelo processo de extrusão, os úmidos são cozidos no vapor, permitindo maior inclusão de carnes e vegetais frescos. Desse modo, vários alimentos úmidos não possuem corantes na sua formulação, já que apresentam a coloração natural dos seus ingredientes. Além disso, como o cozimento dos ingredientes ocorre dentro da própria embalagem, o alimento se torna estéril de microrganismos, não sendo necessária a adição de conservantes.

Os alimentos úmidos podem ser completos ou específicos, sendo geralmente comercializados em latas ou sachês em diferentes texturas, tais como patês, pastas e pedaços ao molho. Os alimentos completos podem ser fornecidos como única fonte alimentar, enquanto os específicos podem ser oferecidos para complementar a nutrição ou como forma de agrado ou recompensa aos cães e gatos.

Ainda, com as novas tecnologias de fabricação dos alimentos úmidos e o desenvolvimento do conhecimento científico sobre nutrição de cães e gatos, esses alimentos apresentam cada vez mais fórmulas ricas em nutrientes de alta digestibilidade e ingredientes funcionais. Desse modo, os alimentos úmidos são uma alternativa alimentar interessante e apresentam inúmeros benefícios à saúde dos cães e gatos, os quais serão discutidos a seguir.

 

Maior ingestão hídrica

A hidratação é fundamental na promoção da saúde e bem-estar dos seres vivos. Assim como os humanos, cães e gatos necessitam ingerir quantidades adequadas de água para sobreviver e preservar suas funções fisiológicas. No entanto, nem sempre eles fazem essa ingestão de maneira adequada, especialmente os gatos, os quais têm origem desértica e, por isso, mantêm o hábito de beber pouca água.

O gato selvagem africano (Felis silvestris lybica), que originou o gato doméstico (Felis silvestris catus), supre a maior parte de sua necessidade hídrica por meio da água contida nas presas ingeridas (contém geralmente 65-75% de água). Como resultado, os gatos domésticos apresentam o mecanismo da sensação de sede pouco sensível ao status hídrico do organismo e possuem alta capacidade de concentração da urina. Essas características podem levar ao desenvolvimento de doenças do trato urinário inferior, como as urolitíases.

 

Prevenção de doenças do trato urinário

Diante do exposto, o fornecimento de alimentos úmidos é uma das principais estratégias para aumentar a ingestão hídrica dos gatos e prevenir as urolitíases. Estudos em cães e principalmente em gatos demonstram que o fornecimento de alimento úmido aumenta a ingestão total de água. Por conseguinte, ocorre aumento no volume e redução na gravidade específica e na supersaturação relativa para oxalato e estruvita da urina [2, 3, 4, 5].

A exigência de água dos gatos é de aproximadamente 50 mL de água/kg de peso corporal [6]. Portanto, um gato de 4 kg deve consumir 200 mL de água/dia. O oferecimento de 1 sachê de 85 g de alimento úmido por dia, fornece 80 mL de água ao animal. Desse modo, seria um complemento importante à baixa ingestão voluntária de água pelo gato. Considerando que esse animal consome 60 g de um alimento seco super-premium com 8% de umidade, a água proveniente dessa dieta seria de aproximadamente 5 mL apenas. Assim, esse animal precisa ingerir no mínimo 115 mL de água via bebida (já considerando os 80 mL do alimento úmido e 5 mL do seco), ao invés de 195 mL, se consumisse apenas o alimento seco (Figura 1).

Figura 1. Exemplo da necessidade de ingestão voluntária de água de um gato recebendo alimento seco + 1 sachê ou apenas alimento seco.

Maior palatabilidade

Os alimentos úmidos geralmente são mais palatáveis em relação aos secos, principalmente para cães. Essa característica é particularmente importante para animais com apetite reduzido, como podemos observar em algumas enfermidades ou em situações de estresse, para filhotes em processo de transição alimentar, ou para animais idosos, que apresentam redução no olfato e paladar.

No caso de animais com apetite caprichoso, é comum os tutores relatarem que adicionam alimentos caseiros, como arroz e frango cozidos, ou restos de refeição ao alimento seco. Essa prática não é aconselhável, pois geralmente esses alimentos podem conter alho, cebola e outros temperos que são tóxicos ou irritantes aos cães e gatos. Desse modo, o alimento úmido seria uma alternativa segura para esses casos também.

A maior palatabilidade desses alimentos aumenta as chances de que cães e gatos, que estejam recusando o alimento seco, consumam os nutrientes diários por meio da alimentação voluntária, uma vez que a textura e o perfil aromático desse alimento contribuem para a sua maior atratividade. Além disso, os alimentos úmidos são mais facilmente apreendidos, mastigados e deglutidos, fator importante, principalmente, para àqueles animais que possuem problemas bucais ou dentários.

 

Auxílio no controle de peso

O teor de umidade dos alimentos úmidos tem grande impacto na densidade energética da dieta, uma vez que a água dilui as calorias. Desse modo, os alimentos úmidos podem ser importantes ferramentas para manutenção ou perda de peso dos animais, podendo ser utilizados como petiscos de baixa caloria. Por exemplo, um sachê de 85 g e 100 g de um alimento úmido para cães e gatos tem entre 18 a 20 kcal, respectivamente.

A substituição do alimento completo por outros itens alimentares, como petiscos, deve ser de no máximo 10% das calorias diárias. Se considerarmos um cão de pequeno porte, castrado, pesando 5 kg, ele deve consumir aproximadamente 320 kcal por dia. Nesse caso, esse animal poderia receber 80 g de um alimento seco completo (90% das calorias diárias) mais um sachê de 100 g por dia (contém 20 kcal), uma vez que 10% das calorias diárias seriam 32 kcal.

Isso contribui para a manutenção do peso saudável, pois o tutor tem a opção de um petisco de baixa caloria, além da sensação de estar fornecendo maior volume de alimento ao seu cão. Ainda, pode contribuir para a redução da ansiedade e aumento da saciedade do animal, pois o fornecimento do alimento úmido contribui para o preenchimento gástrico, ativando os mecanorreceptores, que são sinalizadores importantes da saciedade. O tutor ainda tem a opção de fornecer o alimento úmido congelado ou não dentro de brinquedos específicos, que tornam a alimentação mais interessante e desafiadora ao animal, contribuindo para o seu bem-estar. Cabe lembrar que nem todo alimento úmido apresenta baixa caloria e por isso é importante que o profissional sempre avalie o rótulo antes de indicar o alimento.

 

Conclusão

Os alimentos úmidos possuem amplos benefícios para cães e gatos, tornando-se uma excelente opção diária aos animais. Além de serem palatáveis, aumentam a hidratação e podem auxiliar na manutenção do peso, na prevenção de doenças do trato urinário e na nutrição de animais com dificuldade de ingestão ou diminuição do apetite.

 

 

Referências

  1. FEDIAF – Guideline for Complete and Complementary Pet Food for Cats and Dogs. 2018. Fédération Européenne de l’Industrie des Aliments pour Animaux Familiers, Brussels, Belgium.
  2. Buckley, C.M., Hawthorne, A., Colyer, A., Stevenson, A.E. 2011. Effect of dietary water intake on urinary output, specific gravity and relative supersaturation for calcium oxalate and struvite in the cat. British Journal of Nutrition. V.106, Suppl 1:S128-130.
  3. Stevenson A.E., Hynds W.K., Markwell P.J. 2003. Effect of dietary moisture and sodium content on urine composition and calcium oxalate relative supersaturation in healthy miniature schnauzers and Labrador retrievers. Research in Veterinary Science. v.74, p.145-151.
  4. Lotan Y., Jiménez I.B., Lenoir-Wijnkoop I.L., Daudon M., Molinier L., Tack I., Nuijten M.J.C. 2013. Increased water intake as a prevention strategy for recurrent urolithiasis: Major impact of compliance on cost-effectiveness. The Journal of Urology. v.189, p.935-939.
  5. Thomas D.G., Post M., Bosch G. 2017. The effect of changing the moisture levels of dry extruded and wet canned diets on physical activity in cats. Journal of Nutritional Sciences.
  6. Scott P.P. Nutrition and disease. In: Catcott EJ, ed. Feline Medicine and Surgery. 2nd Ed. Santa Barbara: American Veterinary Publications, 1975, p.131-144.

 

Ananda Portella Félix

Professora de Nutrição animal – Universidade Federal do Paraná

 

Taís Silvino Bastos

Doutoranda em nutrição de animais de companhia – Universidade Federal do Paraná

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