Nutrição

Alimentos Grain Free são uma opção nutricionalmente interessante para cães e gatos?

A escolha pela alimentação dos animais de companhia está cada vez mais criteriosa por parte dos tutores. Em contrapartida, a indústria pet food, baseada em pesquisas cientificas e tecnologia, desenvolve novos nichos de alimentos, com intuito de atender a esta demanda e manter a precisão nutricional e qualidade dos produtos ofertados.

Uma tendência de grande destaque é a de alimentos Grain Free para cães e gatos, que por ser relativamente nova ainda gera muitas dúvidas em relação a sua composição e benefícios nutricionais. Sendo assim, chegou a hora de esclarecer algumas das dúvidas mais comuns sobre este tipo de alimento.

O que são alimentos Grain Free?

Considerados uma tendência crescente do mercado pet food, os alimentos grain free, também conhecidos como livre de grãos, são formulados sem a presença de grãos de cereais convencionais, como milho, soja e trigo. A estratégia nutricional utilizada nesses alimentos é a substituição desses grãos por fontes alternativas, que incluem tubérculos, como batata e mandioca e leguminosas, como ervilha e lentilha. É importante ressaltar que são alimentos que não excluem totalmente os carboidratos da dieta, mas podem apresentar redução desses componentes em sua formulação e utilizar fontes de amido mais complexas, de digestão e absorção mais lenta.

Além disso, os alimentos Grain Free geralmente apresentam alta inclusão de ingredientes de origem animal, lipídeos e de compostos bioativos e funcionais provenientes de frutas, legumes e verduras. Ainda, a maioria não possui ingredientes transgênicos e corantes, aromatizantes e antioxidantes artificiais. Essas características são valorizadas por muitos tutores de cães e gatos, que buscam fornecer alimentos com conceito mais “natural” e “saudável”.

Os alimentos Grain Free são nutricionalmente melhores para o meu cão e gato?

Os alimentos Grain Free são completos e balanceados, assim como outros alimentos secos extrusados para cães. As suas principais diferenças são em relação as fontes e níveis de carboidratos e maior inclusão de ingredientes de origem animal, lipídeos e ingredientes funcionais, como frutas e legumes, além de ter menor uso de aditivos sintéticos, como comentado anteriormente.

O fato desses alimentos não conterem grãos convencionais, como milho e soja, não indica que esses ingredientes sejam prejudiciais aos cães e gatos. Na verdade, a escolha por não utilizar esses grãos foi basicamente para atender tutores que preferem alimentos com ingredientes mais próximos dos naturais, já que a maioria do milho e soja são cultivares transgênicos e foram intensamente selecionados pelo homem. Do mesmo modo, o menor uso de aditivos sintéticos foi para atender esse público, já que a maioria dessas substâncias são as mesmas utilizadas para consumo humano e não há comprovação de efeitos adversos à saúde nas doses utilizadas.

Diante disso, as diferenças nutricionais mais relevantes à saúde de cães e gatos que os alimentos Grain Free podem oferecer são: uso de fontes de carboidratos mais complexos de digestão lenta; fontes proteicas de alto valor biológico e adição de alimentos funcionais.

Benefícios das fontes de carboidratos dos alimentos Grain Free

Os carboidratos da dieta são divididos em dois grupos principais, amido e fibras. O amido e as fibras não são nutricionalmente essenciais para cães e gatos, mas apresentam funções importantes na produção e balanceamento das dietas (amido) e na funcionalidade intestinal (fibras).

Ao contrário do que algumas pessoas acreditam, cães e gatos conseguem digerir muito bem o amido da dieta e metabolizar a glicose absorvida. Isso porque esse amido foi cozido durante a extrusão, tornando as moléculas de amilose e amilopectina que o compõe mais abertas, facilitando a ação da α-amilase pancreática (presente em cães e gatos). Inclusive, não há relatos de efeitos adversos à saúde ou ganho de peso excessivo em cães e gatos saudáveis alimentados com dietas contendo amido. No entanto, considerando que a maioria dos cães e gatos são sedentários e estão com sobrepeso ou obesos e que recebem excesso de alimentação em casa, o uso de fontes de amido lentamente digestíveis é interessante.

As concentrações de amido rapidamente ou lentamente digestíveis nos vegetais variam dependendo principalmente do seu grau de associação com proteínas e/ou fibras e teor de amilose, pois esses compostos retardam a sua digestão. O amido lentamente digestível está presente em maiores concentrações nas leguminosas, como a lentilha e ervilha e em alguns cereais, como o sorgo. Como exemplo, a lentilha, que é muito utilizada em alimentos Grain Free, apresenta entre 20 a 30% de amido lentamente digestível, enquanto o milho contém menos de 5% [1,2]. A Figura 1 ilustra como as frações do amido são divididas segundo a sua taxa de digestão.

Figura 1. Classificação do amido segundo a sua taxa de digestão e exemplos de algumas fontes de amido que são ricas nessas frações. O amido rapidamente digestível (ARD) corresponde a fração digerida à glicose em até 20 minutos em contato com a α-amilase pancreática. O amido lentamente digestível (ALD) corresponde a fração digerida à glicose após 20 minutos. O amido resiste (AR) corresponde a fração indigestível do amido. Adaptado de Englyst et al. (1992)

O uso de ingredientes ricos em amido lentamente digestível na dieta reduz a taxa de absorção de glicose no intestino, promovendo aumento mais lento e gradual na glicemia e insulinemia pós-prandiais [3,4] (Figura 2). Esse fato é muito importante para reduzir os riscos de Diabetes mellitus tipo II, principalmente em gatos obesos, que podem apresentar maior resistência à insulina e são mais propensos a esse distúrbio que cães. Ainda, mantém os níveis glicêmicos estáveis por mais tempo, o que pode contribuir com o prolongamento da saciedade do animal.

Figura 2. Curva glicêmica e insulinêmica pós-prandial de cães alimentados com dietas contendo milho ou lentilha como fonte de amido. O pico de glicemia na dieta com milho ocorreu em 15 minutos, enquanto com a lentilha após 87 minutos da refeição. Adaptado de Carciofi et al. (2008)

Além de ser fonte de amido, a lentilha e outras leguminosas também fornecem proteínas e fibras funcionais ao organismo. Desse modo, alimentos Grain Free que contenham lentilha e fontes de fibras insolúveis e solúveis como a polpa de beterraba, psyllium, inulina, fibra de cana-de-açúcar e frutas favorecem a saúde intestinal dos cães e gatos. As fibras insolúveis são importantes para estimular o peristaltismo e formação do bolo fecal, evitando constipações e podem auxiliar na redução da formação de bolas de pelos em gatos. Enquanto as fibras solúveis são importante substrato para a microbiota benéfica do intestino, estimulando a eubiose (equilíbrio da microbiota intestinal).

Benefícios das fontes proteicas dos alimentos Grain Free

Os alimentos Grain Free priorizam altos níveis de inclusão de fontes proteicas de origem animal, apresentando geralmente maior teor de proteína que os alimentos convencionais. Alguns alimentos Grain Free também contêm carnes selecionadas como carne de cordeiro, salmão e fígado de frango na sua formulação, as quais apresentam elevada digestibilidade proteica (acima de 90%).

Além da carne, outras fontes proteicas de origem animal comumente utilizadas nessas dietas, como a farinha de torresmo, ovo em pó, farinha de peixe e farinha de vísceras de aves, apresentam alto valor biológico, com perfil de aminoácidos que atendem perfeitamente as necessidades de cães e gatos (Figura 3). Ainda, quando é utilizado em conjunto duas ou mais dessas fontes proteicas na formulação, ocorre maior equilíbrio dos aminoácidos da dieta, uma vez que apresentam perfis aminoacídicos complementares.

Figura 3. Perfil de aminoácidos essenciais (% na matéria seca) das principais fontes proteicas [5] utilizadas em alimentos Grain Free e necessidades nutricionais de cães e gatos segundo a FEDIAF (2018).

Considerações finais

Os alimentos Grain Free são uma alternativa nutricionalmente interessante e podem apresentar benefícios à saúde dos cães e gatos, como o uso de fontes de amido de digestão mais lenta; fontes proteicas de alto valor biológico e ingredientes funcionais. Compreender sua composição e sua contribuição nutricional é importante para melhor indicação desse tipo de alimento após avaliação individual do cão ou gato e da demanda do tutor.

Referências

  1. Bednar, G.E., Patil, A.R., Murray, S.M., Grieshop, C.M., Merchen, N.R. and Fahey Jr, G.C. 2001. Starch and Fiber Fractions in Selected Food and Feed Ingredients Affect Their Small Intestinal Digestibility and Fermentability and Their Large Bowel Fermentability In Vitro in a Canine Mode. The Journal of nutrition, v.131, p.276-286. https://doi.org/10.1093/jn/131.2.276
  2. Pezzali, J.G., Aldrich, C.G. 2019. Effect of ancient grains and grain-free carbohydrate sources on extrusion parameters and nutrient utilization by dogs. Journal Animal Science, v.97, p.3758–3767. https://doi.org/10.1093/jas/skz237.
  3. Carciofi, A.C., Takakura, F.S., De‐Oliveira, L.D., Teshima, E., Jeremias, J.T., Brunetto, M.A. Prada, F. 2008. Effects of six carbohydrate sources on dog diet digestibility and post‐prandial glucose and insulin response. Journal of Animal Physiology and Animal Nutrition, v.92, p.326-336. https://doi.org/10.1111/j.1439-0396.2007.00794.x.
  4. De-Oliveira, L.D., Carciofi, A.C., Oliveira, M.C.C., Vasconcellos, R.S., Bazolli, R.S., Pereira, G. T., Prada, F. 2008. Effects of six carbohydrate sources on diet digestibility and postprandial glucose and insulin responses in cats. Journal Animal Science, v.86, p.2237-2246. https://doi.org/10.2527/jas.2007-0354
  5. Nutrient Requirements of Dogs and Cats – NRC. Washington, DC, National Academies Press, 2006, 424p.
  6. Englyst, H.N., Kingman, S.M., Cummings, J.H. 1992. Classification and measurement of nutritionally important starch fractions. Eur J Clin Nutr, v.46, p.33-50.
  7. Fédération Européenne de l’Industrie des Aliments pour Animaux Familiers – FEDIAF. Guideline for Complete and Complementary Pet Food for Cats and Dogs. Brussels, Belgium, 2018.

Autores:

Camilla Mariane Menezes Souza
Doutoranda em nutrição de animais de companhia – Universidade Federal do Paraná

Ananda Portella Félix
Professora de Nutrição animal – Universidade Federal do Paraná

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